Não é fácil ser pamonha, para ser pamonha só sendo muito esperto. Tem que ter também certa compaixão para com os espertos, ou melhor, que se acham espertos, pois o pamonha sempre sabe que está sendo passado para trás – o problema é que o pamonha deixa acontecer.

Todo pamonha, incluindo as pamonhas, é na realidade um carente. É uma carência tamanha que o faz preferir ser ludibriado, enganado, traído, que brigar e correr o risco de perder um amigo ou a companheira.

Não é fácil ver a cara do mentiroso, saber de tudo, desde o motivo – sim, pois o pamonha é um sensitivo – e fingir ignorar completamente, aceitar as desculpas mais esfarrapadas, só para não expor o outro, para poupá-lo de perceber que é um idiota completo usando de toda a sua inteligência para passar a perna em alguém, enquanto o pamonha já percebeu, mas vai fingir que não, e finge tão bem, que até ele mesmo acredita que não passa de um pamonha. O que ele não sabe explicar é porque fica calado e aceita, mas que todo pamonha sabe que está sendo enganado, ah isso sabe.

Eu sempre sei. Sempre. Às vezes, tenho vontade de dizer: ” Ô esperto, faz-me rir”. Mas fica tudo engasgado, escondo os olhos que tudo sabem e mostro o sorriso amarelo. Deixa para lá. Quem sabe, não seja perda de tempo mostrar para o esperto que ele é, na verdade, o mais pamonha dos pamonhas.